O Livro do Êxodo: Uma Análise Teológica e Judaica

Introdução

    O livro de Êxodo ocupa um lugar central na Bíblia Hebraica e na tradição cristã, sendo o segundo livro do Pentateuco. A palavra “Êxodo” provém do grego exodos, que significa “saída”, refletindo o tema central: a libertação dos israelitas da escravidão no Egito e sua caminhada em direção à terra prometida. No hebraico, o livro é denominado Shemot (“Nomes”), pois inicia com a lista dos descendentes de Jacó que desceram ao Egito (Êx 1:1-7).

Estrutura e Conteúdo

O livro pode ser dividido em três grandes blocos narrativos: (1) Êxodo do Egito (Êx 1‒15); (2) Aliança no Sinai (Êx 16‒24); (3) O Tabernáculo e a Presença Divina (Êx 25‒40).

O Êxodo como Ato de Libertação

A tradição cristã e judaica concordam que o êxodo do Egito é o evento fundador da identidade de Israel. Para o rabino Jonathan Sacks, “o Êxodo não é apenas história, é a memória central da fé judaica”. Já Karl Barth destaca que o êxodo é paradigma da salvação. Gerhard von Rad enfatiza que o êxodo deve ser entendido como ato divino.

Moisés como Profeta e Líder

Moisés é chamado na tradição judaica de Moshe Rabbeinu (“Moisés, nosso mestre”). Rashi destaca sua humildade como razão de sua eleição. Na tradição cristã, Agostinho vê Moisés como figura da graça. Orígenes interpreta a travessia do Mar Vermelho como símbolo do batismo.

As Dez Pragas e a Páscoa

As dez pragas mostram o poder de Deus sobre os deuses egípcios. Ramban comenta que cada praga desconstruía uma idolatria. Maimônides ressalta a dimensão pedagógica da Páscoa. No cristianismo, o cordeiro pascal prefigura Cristo, segundo Tomás de Aquino.

A Revelação no Sinai

O Sinai é o clímax do livro. Para Abraham Joshua Heschel, o Sinai é o nascimento da fé pública. Gregório de Nissa vê o Sinai como ascensão espiritual. Brevard Childs ressalta a combinação de graça e exigência.

O Bezerro de Ouro e a Infidelidade

O episódio revela a fragilidade do povo. Rashi observa a impaciência. O Midrash destaca que foi rejeição à mediação divina. Para Calvino, mostra a fábrica de ídolos do coração humano. Agostinho vê na intercessão de Moisés a figura de Cristo.

O Tabernáculo e a Presença de Deus

O Tabernáculo é sinal da presença divina. Hirsch o interpreta como proximidade de Deus. No cristianismo, João 1:14 associa o Tabernáculo à encarnação de Cristo.

Êxodo como Paradigma de Fé

No judaísmo, o Êxodo fundamenta a ética social: “Amarás o estrangeiro, porque foste estrangeiro no Egito”. No cristianismo, Oscar Cullmann o chama de evento-escatológico antecipado. Em ambas tradições, é memória viva da ação de Deus.

Conclusão

O livro de Êxodo é paradigma da fé bíblica. Ele revela o Deus libertador, a mediação de Moisés, a aliança do Sinai, a memória da Páscoa e a presença de Deus no Tabernáculo. Tanto rabinos quanto teólogos cristãos concordam em sua centralidade como texto vivo de fé e identidade.

Referências Bibliográficas

Agostinho de Hipona. A Cidade de Deus.

Barth, Karl. Church Dogmatics. Edinburgh: T&T; Clark, 1936-1968.

Childs, Brevard. The Book of Exodus: A Critical, Theological Commentary. Philadelphia: Westminster Press, 1974.

Cullmann, Oscar. Cristo e o Tempo. São Paulo: Paulus, 2001.
Eichrodt, Walter. Theology of the Old Testament. London: SCM Press, 1961.
Gregório de Nissa. A Vida de Moisés.
Heschel, Abraham Joshua. God in Search of Man. New York: Farrar, Straus and Giroux, 1955. Josefo, Flávio. Antiguidades Judaicas.
Maimônides. Guia dos Perplexos.
Nachmânides (Ramban). Comentário sobre a Torá.
Orígenes. Homilias sobre o Êxodo.
Rashi. Comentário sobre a Torá.
Sacks, Jonathan. Covenant & Conversation: Exodus. Jerusalem: Maggid Books, 2010.
Samson Raphael Hirsch. Comentário sobre a Torá.
Tomás de Aquino. Suma Teológica.
Von Rad, Gerhard. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: ASTE, 2006.

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