O Livro de Gênesis: Análise Teológica e Rabínica

Introdução

    O livro de Gênesis, primeiro da Bíblia hebraica e também do Antigo Testamento cristão, constitui o fundamento de toda a narrativa bíblica. Em hebraico, é denominado Bereshit (“no princípio”), título retirado da sua palavra inicial; já a tradução grega da Septuaginta o nomeia como Gênesis, isto é, “origem” ou “nascimento”.

A importância deste livro não se restringe à religião. Ele também é estudado por filósofos, historiadores e antropólogos, pois trata de questões universais sobre a origem do mundo, da humanidade e do mal, além de oferecer uma cosmovisão singular que moldou a cultura ocidental.

Do ponto de vista literário e teológico, Gênesis divide-se em duas grandes seções:

  1. História primitiva (Gn 1–11): criação, queda, dilúvio e dispersão das nações.
  2. História patriarcal (Gn 12–50): trajetória de Abraão, Isaque, Jacó e José.

O objetivo deste estudo é analisar Gênesis à luz dos principais comentaristas cristãos (Agostinho, Lutero, Calvino, Von Rad, Westermann, Wenham, Kierkegaard) e da tradição judaica (Rashi, Maimônides, Nahmânides, Midrash Rabbah, Talmude).


1. A História Primitiva (Gênesis 1–11)

1.1 Criação (Gn 1–2)

O relato da criação apresenta duas perspectivas complementares: em Gn 1, Deus cria com ordem e propósito, estabelecendo o sábado como dia santo; em Gn 2, há um enfoque mais humano, no Éden e na criação de Adão e Eva.

  • Agostinho de Hipona interpreta a criação não apenas como um ato histórico, mas como expressão simbólica da sabedoria eterna de Deus (Confissões, XI).
  • Calvino enfatiza a clareza e a autoridade da revelação: o texto mostra a soberania absoluta de Deus sobre o cosmos (Comentário ao Gênesis).
  • Rashi interpreta Bereshit como “por causa do princípio”, sugerindo que Deus criou o mundo em vista da Torá e de Israel.
  • Midrash Rabbah descreve a criação como o preparo de um palácio para a humanidade, expressão do amor divino.

1.2 A Queda (Gn 3)

O pecado de Adão e Eva introduz a desordem moral e espiritual no mundo.

  • Lutero observa que a queda resulta da quebra de confiança em Deus.
  • Von Rad ressalta o caráter mítico-teológico da narrativa, simbolizando a ruptura com a ordem divina.
  • Maimônides, no Guia dos Perplexos, entende a queda como a transição da inocência natural para a consciência moral.
  • Talmude interpreta o fruto proibido como símbolo da liberdade e responsabilidade humana.

1.3 Caim e Abel (Gn 4)

O fratricídio de Caim contra Abel representa a degeneração do pecado.

  • Calvino destaca que Deus rejeitou Caim não pela oferta em si, mas pela falta de sinceridade.
  • Rashi comenta que Caim deu “do pior” de sua colheita, enquanto Abel deu “do melhor”.
  • Os rabinos veem aqui a raiz do conflito humano motivado pela inveja e pela injustiça.

1.4 O Dilúvio (Gn 6–9)

A corrupção da humanidade leva ao juízo do dilúvio, mas Noé encontra graça diante de Deus.

  • Agostinho vê a arca como figura da Igreja que salva os justos (Cidade de Deus).
  • Von Rad interpreta o dilúvio como reinício da história, sem eliminar a inclinação ao mal.
  • Midrash sugere que a justiça de Noé era relativa, destacando a misericórdia de Deus.

1.5 A Torre de Babel (Gn 11)

A torre representa a tentativa humana de alcançar autonomia absoluta.

  • Lutero identifica aqui a arrogância da humanidade contra Deus.
  • Rashi explica que os construtores queriam “subir contra o céu” para eliminar a necessidade de Deus.
  • A narrativa fundamenta a diversidade linguística e cultural.

2. A História Patriarcal (Gênesis 12–50)

2.1 Abraão (Gn 12–25)

Abraão é o patriarca da fé e da aliança.

  • Calvino destaca que sua justificação se deu pela fé (Rm 4).
  • Rashi interpreta o chamado como sinal do amor divino, enquanto o Midrash afirma que Abraão descobriu o monoteísmo por reflexão própria.
  • O sacrifício de Isaque (Gn 22), conhecido como Aqedah, é interpretado por Kierkegaard como o “paradoxo da fé”.
  • Os rabinos entendem a Aqedah como teste pedagógico que revela a fidelidade de Abraão e prepara Israel para futuros sacrifícios.

2.2 Isaque e Jacó (Gn 25–36)

Isaque mantém a promessa, mas é Jacó quem vive o drama da luta espiritual.

  • Von Rad vê Jacó como arquétipo do povo de Israel, que luta com Deus e prevalece.
  • Rashi interpreta o nome “Israel” como sinal de vitória espiritual.
  • Para os rabinos, cada patriarca representa uma qualidade: Abraão = bondade (chesed), Isaque = justiça (din), Jacó = verdade (emet).

2.3 José e seus irmãos (Gn 37–50)

A narrativa de José mostra como Deus transforma o mal em bem (Gn 50:20).

  • Calvino ressalta a providência divina que conduz a história.
  • Westermann valoriza a sofisticação literária do relato.
  • Midrash associa os sofrimentos de José ao futuro exílio de Israel.
  • O perdão de José exemplifica a reconciliação como chave da história.

3. Teologia do Livro de Gênesis

  1. Deus Criador: o universo é resultado de um ato livre e ordenado de Deus.
  2. Imagem de Deus: a dignidade humana está no ser criado à imagem divina.
  3. O Pecado: a desobediência introduz ruptura cósmica e social.
  4. A Aliança: a eleição de Abraão e seus descendentes estabelece o plano de salvação.
  5. Providência: Deus governa a história, transformando o mal em bênção.

4. Perspectiva Rabínica

A tradição judaica interpreta Gênesis em quatro níveis (Pardes):

  • Peshat (literal): sentido simples.
  • Derash (homilético): aplicação moral.
  • Remez (alegórico): alusões e símbolos.
  • Sod (místico): dimensões ocultas.

4.1 Rashi (1040–1105)

Esclarece o texto com simplicidade. Interpreta Gn 1:26 como expressão da humildade divina: Deus consulta a corte celestial.

4.2 Nahmânides (1194–1270)

Enfatiza o aspecto místico da criação. Para ele, Bereshit contém todo o projeto divino, revelado progressivamente.

4.3 Maimônides (1138–1204)

Procura harmonizar razão e fé. Interpreta a queda como o despertar da razão prática.

4.4 Midrash Rabbah

Interpreta a criação como um palácio preparado para a humanidade, destacando o amor de Deus.


Conclusão

O livro de Gênesis é a fundação da teologia bíblica. Ele apresenta Deus como criador soberano, o homem como imagem divina e responsável, a realidade do pecado, mas também a esperança da redenção por meio da aliança.

Na tradição cristã, Gênesis aponta para Cristo como cumprimento da promessa feita a Abraão (Gl 3:16). Já na tradição judaica, é a origem da identidade de Israel e sua vocação de ser luz para as nações.

Ao unir perspectivas de teólogos cristãos e rabinos, percebemos que Gênesis não é apenas um livro antigo, mas uma narrativa viva, que continua a interpelar a humanidade sobre as questões fundamentais: quem somos, de onde viemos, qual o sentido da história e para onde caminhamos.


Referências Bibliográficas (simuladas)

  • AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Paulus, 2002.
  • AGOSTINHO. A Cidade de Deus. Petrópolis: Vozes, 2004.
  • CALVINO, J. Comentário ao Gênesis. São Paulo: Cultura Cristã, 2009.
  • LUTERO, M. Comentários sobre Gênesis. São Leopoldo: Sinodal, 2001.
  • VON RAD, G. Gênesis: Comentário. São Paulo: Paulus, 2006.
  • WESTERMANN, C. Genesis: A Commentary. Minneapolis: Augsburg, 1985.
  • WENHAM, G. Word Biblical Commentary: Genesis 1–15; 16–50. Dallas: Word, 1991.
  • KIERKEGAARD, S. Temor e Tremor. Lisboa: Relógio d’Água, 1990.
  • RASHI. Comentário sobre a Torá. Jerusalém: Mossad Harav Kook, 2005.
  • MAIMÔNIDES. Guia dos Perplexos. São Paulo: Perspectiva, 2000.
  • NAHMÂNIDES (RAMBAN). Comentário sobre a Torá. Jerusalém: Shilo, 1999.
  • Midrash Rabbah: Genesis. Translated by H. Freedman. London: Soncino Press, 1983.
  • TALMUD BAVLI. Sanhedrin, Bereshit Rabbah. Jerusalém: Neusner Ed., 1995.

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